sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Morrer Feliz: Helder de Carvalho


“Para o ano faço 60 (sessenta) anos. Quarenta terão decorrido em democracia. Já vivi o suficiente para perceber a importância de Abril de 74.

 
Aos catorze anos deixei o nosso interior rural para aportar à cidade do Porto. Como foi difícil a minha integração. Tive uma juventude feliz em Carrazeda, apesar de ver próxima a miséria, sem a experimentar verdadeiramente. Fazia facilmente amigos e via como muitos deles se tornavam órfãos cedo de mais, já que os pais emigravam à procura de sustento.

A lida no campo era realmente miserável para quem trabalhava por conta de outrem, mesmo assim, muitos ainda conseguiam dar educação aos filhos e mandá-los a estudar para a cidade. Para outros restava o vício do vinho para esquecer, ou a religião para sonhar com o céu.

Era daqui que partiam também muitos recrutas a caminho das guerras do ultramar, não sabiam como escapar e alguns de lá vieram em caixões.

Quando fui estudar para a cidade abriram-se os meus horizontes. Em paralelo aos estudos, pratiquei atletismo (FCP); fiz teatro ( TEP); fiz expressão corporal (PARNASO); inscrevi-me em associações recreativas e culturais, e ajudei a criar algumas; vi cinema em cine- clubes; li livros; fiz exposições; viajei; convivi e namorei.

Pouco antes do 25 de Abril vieram companhias que me ajudaram a tomar consciência da realidade politica e social do meu país, que não tinha verdadeiramente. Nessa altura assisti frequentemente a julgamentos políticos no Tribunal de S. João Novo; participei em manifs; li autores proibidos.

Com a chegada da revolução não fui dos primeiros a reagir, nem aderi a qualquer partido, dos entretanto formados. Julgava-me anarquista, portanto mais radical que os outros. Apesar de aceitar o grupo, apostei sempre na opinião própria e percebi cedo que a democracia era a vontade da maioria.

Para mim o importante é sentir que tenho razão e a maioria nem sempre a tem. No meu percurso de vida nunca esqueci a terra que me viu nascer. Ao seu serviço estive sempre disponível. Exerci nela sempre que pude, um papel de cidadão activo que é fácil de atestar. Contudo e no cômputo geral, nunca senti que a minha terra tivesse ganho, como eu ganhei pessoalmente, com a chegada da democracia.

Não vi mudar as mentalidades mais influentes, incluindo as dos que cuidam do espírito. Não vi nascer o gosto pela liberdade. Não vi crescer o sentido de solidariedade. Não vi desaparecer o caciquismo. Não vi crescer equitativamente a qualidade de vida das suas populações. Não vi desaparecer o flagelo da emigração. Vi melhorar as infraestruturas físicas, mas não vi paralelamente melhorar a qualidade de atendimento, a qualidade de aprendizagem, o apoio social de proximidade, as condições para que os que aqui têm raízes, conseguissem ser felizes.

Com a fuga de muitos, desapareceu o sentido de identidade, o orgulho que é próprio de quem tem um passado com história , onde se poderiam encontrar exemplos de outra grandeza.

No momento actual em que voltamos a ter eleições autárquicas, em que mais uma vez se decide sobre o futuro do concelho, é triste ver como se continua a ignorar o sentido da realidade e, se propõem falácias e usa a demagogia para convencer os menos esclarecidos.

E era tão fácil conhecer a prática de cada um dos intervenientes que se propõem ao escrutínio.

 Como não me conformo, ainda acredito que hei-de morrer feliz na minha terra.”


qua Set 18, 12:47:00 AM

AnónimoAnónimo disse...

Concordo com a análise. Mais uma entre tantas outras aqui explanadas. Pena que seja mais uma que surge em plena campanha eleitoral. Daqui a umas semanas, a boca cala-se e lamenta-se daqui a 4 anos. Todos os vários artigos surgidos nas últimas semanas têm um propósito. PSD e CDS já mostraram que não estão à altura. Quem sugerem???
qua Set 18, 01:20:00 PM

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